Giovanni Della DeaPensatas

O feed virou cassino: algoritmos, afeto e as máquinas desejantes

Pensata 404 - Edição 09 - por Thiago Assumpção Nossas pensatas são discutidas no Lab 404, mas refletem a opinião...

Pensata 404 – Edição 09 – por Thiago Assumpção

Nossas pensatas são discutidas no Lab 404, mas refletem a opinião pessoal.


As imagens são sedutoras: sorrisos, cifras, links, promessas. Influencers comemoram vitórias em sites de apostas com a leveza de quem compartilha uma dica de moda ou uma nova série. O tom é casual, os vídeos são curtos, e a CPI das bets, instaurada no Senado, tenta puxar o fio que está por baixo: como influenciadores digitais vêm promovendo plataformas de jogos de azar com impacto direto na vida e no bolso de milhões de brasileiros.

O interesse popular por essa investigação ganhou novo fôlego após o depoimento de Virginia Fonseca à comissão parlamentar de inquérito em questão. A influenciadora, que acumula mais de 53 milhões de seguidores no Instagram (número superior à população somada da Austrália, Grécia, Portugal e Irlanda, segundo cálculo da jornalista Rosana Hermann), foi convocada por ter divulgado uma casa de apostas em seu perfil. Durante seu depoimento, afirmou que não sabia que a empresa atuava de forma irregular e alegou que a responsabilidade contratual era da sua agência.

O depoimento de Virginia expôs algo que já estava em curso: o marketing das bets ocupou os circuitos mais visíveis da cultura digital. A legalidade da publicidade é o fio mais visível desse arranjo. Por baixo dele circulam afetos, formas de subjetivação e técnicas de captura do desejo que a CPI não foi convocada para investigar.

A CPI precisa de culpados. O agenciamento maquínico, como propõem Deleuze e Guattari (2011), distribui a ação por corpos, algoritmos, plataformas, imagens e fluxos financeiros que produzem juntos modos de vida. Influenciadores são pontos de conexão nesse sistema, um nó entre muitos. A subjetividade, nesse contexto, não é uma essência individual. Forma-se a partir desses atravessamentos. As postagens de Virginia ativam desejos, alimentam fantasias, dão forma a uma ideia de sucesso que mistura ascensão social, ostentação e sorte.

Informação é o pretexto. O que circula de fato é afeto, e o afeto, como demonstrou Massumi (2002), tem uma potência que a linguagem não captura: atravessa o corpo antes mesmo de virar pensamento. O clique na bet é afetivo. Responde a um clima de excitação fabricado em vídeos que prometem ganhos fáceis e imediatos. Os sistemas automatizados das plataformas sabem disso: YouTube, TikTok e Instagram ajustam seus algoritmos para favorecer o que gera resposta emocional, e a viralização é o resultado previsível desse ajuste. Mais afeto gera mais visibilidade, que gera mais repetição do formato.

O caso das apostas mostra um regime mais amplo de financiamento da influência nas redes: a produção de conteúdo articulada à captura algorítmica do desejo e à monetização de afetos em escala. É aqui que Massumi e Deleuze/Guattari se encontram: o afeto que escapa à linguagem é exatamente o combustível que as máquinas desejantes precisam para funcionar. O negócio é sustentar esse sistema. Divulgar produtos é só a superfície visível.

Algoritmos são infraestruturas de poder, como já argumentei numa pensata anterior, com efeitos concretos sobre o que se vê, sente e deseja. A lógica da For You do TikTok exemplifica isso: cada toque, cada pausa no vídeo alimenta um sistema que aprende em tempo real e redistribui esse aprendizado como conteúdo personalizado. O que circula, o que viraliza, o que vira comportamento comum passa por esse filtro.

As plataformas de apostas funcionam nesse circuito como máquinas desejantes (Deleuze; Guattari, 1976): capturam a imagem do sucesso encarnada por influenciadores que performam vitórias e redistribuem essa imagem como promessa acessível. O jogo se infiltra no cotidiano, aparece entre conteúdos de entretenimento e passa a ser visto como escolha banal. O disclaimer de responsabilidade é protocolar e cumpre função de imunização simbólica. Quem joga com responsabilidade não aprende isso num aviso de cinco segundos.

Responsabilizar influenciadores é necessário. A CPI, porém, enquadra o problema como questão de conduta individual e deixa de fora os arranjos institucionais e tecnológicos que tornam essa conduta possível e lucrativa. Quando Virginia transfere a responsabilidade à sua agência, está descrevendo, sem querer, como a cadeia de ação funciona: distribuída, difusa, própria de todo agenciamento maquínico.

O Estado que investiga é o mesmo que regulou tarde e mal a publicidade digital e a indústria de apostas. Essa omissão é estrutural, anterior à CPI e independente dela. O que está em curso é um circuito técnico e afetivo que articula visibilidade, desejo e risco em lógicas cada vez mais sofisticadas de monetização da atenção.

Se antes o jogo ocupava ambientes discretos e marginalizados, hoje aparece entre stories, sorteios e danças virais. Apostar virou conteúdo. O feed virou cassino. A subjetividade é o que está sendo apostado.

Atualizações:

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 2. São Paulo: Ed. 34, 2011.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976.

MASSUMI, Brian. Parables for the virtual: movement, affect, sensation. London: Duke University Press, 2002.

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