Giovanni Della DeaPensatas

Fadiga algorítmica: quando a Geração Z cansa das próprias trends

Pensata 404 - Edição 06 - por Thiago Assumpção Nossas pensatas são discutidas no Lab 404, mas refletem a opinião...

Pensata 404 – Edição 06 – por Thiago Assumpção

Nossas pensatas são discutidas no Lab 404, mas refletem a opinião pessoal.


A Geração Z está cansada das próprias trends. Pelo menos é o que aponta uma recente matéria do New York Times republicada pela Folha, que identifica uma fadiga diante da velocidade crescente das modinhas que surgem e desaparecem nas redes sociais. O esgotamento é geracional na superfície e estrutural na raiz: resultado da plataformização da cultura, em que o desejo de engajamento é capturado e exaurido por arquiteturas algorítmicas em ciclos cada vez mais curtos. Estamos diante de um fast trend, e o ritmo é o problema.

As tendências surgem e desaparecem em fluxo contínuo: clean girl, messy girl, no-makeup make, mob wife aesthetic, Anxiety viral dance, garrafas térmicas gigantes em tons pastéis, livros de colorir do Bobbie Goods, obsessão por salada de pepino e vídeos ASMR[1]. Não há pausa. A cada semana, novos objetos e estéticas capturam a atenção apenas para serem descartados. A jornalista Callie Holtermann menciona os aceleradores do ciclo de tendências e as funções clique-para-comprar do TikTok Shop, que encurtam o tempo entre ver um produto e tê-lo na porta de casa, quase sem ponderar a real necessidade de ter daquilo.

TikTok, Instagram e YouTube são agentes ativos na produção de desejos e na obsolescência acelerada. Projetam tendências, aceleram seu ciclo e as amplificam até a saturação. O que viraliza é produto da performatividade algorítmica que reorganiza o fluxo da atenção e retroalimenta o ciclo de consumo. Cada interação (um like, um compartilhamento, um comentário) alimenta mecanismos preditivos que ampliam a circulação de determinados formatos até que percam a eficácia e sejam descartados.

A lógica do For You Page no TikTok e dos sistemas de recomendação em outras plataformas funciona assim: ao identificar padrões de interesse, a plataforma multiplica conteúdos similares até a saturação. O resultado é um consumo cultural em modo fast-forward, onde cada trend já nasce com data de validade. A experiência estética e o pertencimento digital tornam-se descartáveis.

Em pesquisa com criadoras digitais brasileiras, Karhawi e Prazeres (2022) recolheram um vocabulário que se repete: desânimo, sensação de não dar conta, medo de penalidades. Uma delas resume em poucas palavras o que as métricas fazem ao corpo: “muuuito trabalho pra depois ter a sensação de que não está sendo o suficiente.” O ciclo que esgota o espectador é o mesmo que esgota quem produz o conteúdo. A plataforma não distingue os dois.

Essa fadiga é um sintoma da intra-ação entre humanos e infraestruturas digitais, não um esgotamento subjetivo isolado. A Geração Z está sendo modulada por um sistema que intensifica e descarta desejos em ciclos acelerados. O tédio, a inquietação e a exaustão são produtos imanentes dessa lógica, não efeitos colaterais acidentais. Tendências (sejam estéticas, memes ou áudios) são performadas por interfaces, cálculos preditivos e lógicas de engajamento que automatizam sua ascensão e obsolescência. Plataformas moldam afetos, ritmos e percepções do tempo, instaurando uma sensação de urgência constante, como se cada nova trend fosse uma chance única de pertencimento. Nesse circuito, usuários são coprodutores da exaustão, ajustando-se continuamente às dinâmicas algorítmicas. O desejo de engajamento é distribuído numa rede que inclui métricas, sistemas de recomendação e modelos de monetização. A subjetividade é o que esse circuito reorganiza continuamente, no limite entre hiperexposição e descarte.

Entre jovens que buscam pertencimento e reconhecimento, o ritmo acelerado intensifica estados de ansiedade e instabilidade em meio a fluxos algorítmicos que não cessam.

Se antes a crítica ao consumo rápido mirava o fast fashion, hoje lidamos com um fast trend, onde a experiência estética, o pertencimento cultural e até a própria subjetividade são comprimidos pelo tempo algorítmico. Quando tudo se torna obsoleto em questão de dias, a construção identitária perde o chão antes de se firmar. Se a subjetividade é constantemente ajustada às novas modinhas, será que ainda há espaço para um desejo que não seja pré-formatado pelo algoritmo?


[1] As trends citadas referem-se a estéticas e comportamentos populares no TikTok: clean girl (visual minimalista e “limpo”), messy girl (estilo despojado e caótico), no-makeup make (maquiagem que imita o rosto sem maquiagem), mob wife aesthetic (visual exagerado e chamativo inspirado em esposas de mafiosos). Também são listadas práticas de consumo impulsionadas pelo TikTok, a exemplo da compra e publicação do processo de pintura dos livros da série Bobbie Goods; vídeos de Autonomous Sensory Meridian Response (ou Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em português); que são publicações que pretendem distrair e relaxar o cérebro através de sons; e, uma receita viral de salada de pepino preparada numa tupperware.